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CARA PÁLIDA

- Ah sei... Você tem quatro filhos então?
- Filhos não. Sobrinhos... – esclareci à moça que cortava os meus cabelos.
Horas depois, ainda encontrando fios de cabelo pela roupa, me lembrei da serenidade com a qual a mulher havia feito aquela pergunta. Não ficou espantada, nada de olhos arregalados, longe de achar absurdo que alguém feito eu pudesse ter quatro filhos. Nada de algo como “Minha nossa!!! Não acredito! Tão novinho!!! Você??? ”
Eu teria cara de alguém com quatro filhos?
Que outros personagens não ficariam um absurdo em mim, além do íntegro pai de quatro crianças? Sei que cantor de banda de rock não, visto a surpresa com a qual a maioria reage: “Cê tá brincando!!! Sério? Mas você não tem cara de quem canta em banda de rock! Olha só...” Depois, emendam que eu convenceria mais como seminarista. Bem, o que não deixa de ser uma novidade, produto diferenciado, visto que a moda agora são vocalistas com cabelos coloridos, piercings estratégicos e corpo tão tatuado que acabam virando Homem-Gibi.
Tudo bem, fico com mais essa então. Quatro filhos? Não, graças à Deus. E à Jontex.
Escrito por Tuca Hernandes às 12h43
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SONHOS QUE NÃO OS DA PADARIA

Como a voz dos outros não pede licença antes de entrar em nossos ouvidos, acabo escutando o trecho de uma conversa entre dois homens, cabelos grisalhos, ali no balcão do cafezinho. Um deles confessa, excitadíssimo:
- Rapaz, sabe qual é o meu sonho? Ter um home theater na minha sala... Puta que pariu!!! Já imaginou??? Aquele som dolby surround, simplesmente do outro mundo, integrado com uma TV de tela plana enorme! Eu juro, é tudo que quero na vida! Meu sonho!!!
E eu? Pensei. Qual seria o meu ideal de vida? Ter um harém com sósias da Liv Tyler? Ganhar meu primeiro milhão, em dólar, com uma idéia que só um gênio teria? Reencontrar clones dos meus melhores amigos em cada esquina, cada boteco? Não sei...
Meu maior sonho talvez seja continuar envelhecendo livre de sonhos bobocas. Como o de ter um home theater na minha sala, por exemplo.
Escrito por Tuca Hernandes às 16h06
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CORDIALIDADE

Sempre assim. Na entrada, bom dia. Na saída, obrigado. Tudo dito com uma má vontade de tirar a fome. Como entender isso? Mas ela não é, junto com o marido sorridente, a dona daquele restaurante por quilo? Não seria fundamental uma expressão, tanto física quanto sonora, carregada de uma simpatia feito luminoso no ar a dizer “Volte sempre, meu chapa!”? Não, hoje ainda não. Como aperitivo, antipatia.
E ela é bonitona, morena com a barriga malhada sempre à mostra, trinta e tantos anos. Conservada. Penso se aquela frieza fora devido algumas encaradas minhas no passado. Não para os olhos dela. Mas sim, para a tal barriga, sempre ali, como se houvesse um holofote a evidenciá-la. Não, concluo. E tantos outros homens devem passar por lá todos os dias, com mais fome ainda que eu. De comida e outras coisas.
De barriga cheia, atravesso a rua e vou tomar um café na doceria em frente ao restaurante do mau humor. Sempre a mesma coisa, agora uma outra moeda. A garota miudinha e magricela me pergunta, com um sorriso de quem ganhou na loteria, se quero o de sempre. A mesma cordialidade na saída, aquele brilho no aparelho dos dentes bem evidente. Tenha uma boa tarde e volte sempre!
No fim das contas, o café, que não é lá essas coisas, passa a ser o melhor da região. A comida do outro lado? Uma bosta.
Escrito por Tuca às 23h49
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CACHORRO!!!

Há muitos anos atrás, lembro-me de ter ligado o rádio do carro e escutado uma canção até então desconhecida, cujo refrão era “Segura o tchan! Amarra o tchan!! Segura o tchan-tchan-tchan-tchan-tchan!!!”.
- Essa porra, de tão ridícula, vai fazer sucesso, quer ver? - comentei com um amigo meu.
Tudo bem, confesso, mais adiante eu acompanhei algumas vezes a coreografia, sem dúvida inspirado pela cerveja na cabeça e a mulherada ao redor, que iam aquecendo-se para a apoteose, conhecida na época como “Dança da Boquinha da Garrafa”. Festas de faculdade, águas passadas.
Dias atrás, vendo TV, novamente tive um desses pressentimentos desagradáveis, do tosco que se tornará ouro. Um cachorro de desenho animado, Pit Bull, tatuado, cara de mau, de “atitude”, cantava um rap. Uma mistura de Alexandre Frota com Fernandinho Beira-Mar. “Dogão é mau, au, au”, era o refrão. O tal Dogão já estava ontem no primeiro lugar na parada de videoclipes da MTV. Jabá violento.
A desvantagem aqui é que, por tratar-se de um desenho animado, não poderemos acompanhar, com um certo sentimento de justiça divina, a futura decadência da figura, a exemplo de tantos outros patetas que um dia tiveram seus momentos de glória.
Nem carrocinha dá pra chamar.
Escrito por Tuca às 20h11
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À Mando

- Uma baixaria só! Desligamos a TV, e ficamos lá na sala, ouvindo tudo, que nem vizinha fofoqueira na janela. Bem ali, colado na nossa sala. Um berrando com o outro.
- Mas há quanto tempo seus vizinhos são casados? São novos?
- Que nada, uns trinta e cinco anos. Três meses de casamento... É briga desde a primeira semana...
- Vixe!
Ainda não entendo porque algumas pessoas que vivem quebrando o pau resolvem se casar. Provavelmente, os vizinhos de minha irmã fazem parte daquela ala do desespero, onde, no alto dos trinta e tanto, relógio biológico já dando um risinho cínico, resolvem de alguma forma ganhar aquele selo de qualidade “Ufa! Me casei!” em conjunto com um outro, escolhido na base do vai tu mesmo.
Depois, já separados e traumatizados com as noites de vale-tudo (no mau sentido aqui), muitos viram um desses paranóicos anti-relacionamento, tal qual um veterano de guerra que surta com qualquer coisa que lembre seus dias de combate.
Se empolgar com qualquer bobeira, tudo bem. Agora, casar com a bobagem, tragicômico...
Escrito por Tuca às 20h14
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