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TAIS NOMES, TAIS AMORES

- Alô?
- Oooooi fofinhô... tudo benhê?
- Olha, mais ou menos, viu?
- O que aconteceu, meu pedacinho de céu?
- Hummm... Não sei se falo... Ah, vou falar, dane-se... Seguinte, tem algo que está me incomodando, faz tempo. Me irritando profundamente.
- Ah fofuxinho, pode falar, desabafa aqui com a sua Pripri...
- Ok, lá vai. É essa sua mania de falar que nem criança, vindo com esses apelidinhos, essa coisa toda melosa. Tudo no diminutivo! Pronto, falei. Isso me incomoda. Me desculpe, Priscila Maria.
- Mas porquê, fofin.., digo, Paulo Alberto? É uma maneira de expressar meu carinho por você, pôxa vida.
- Eu sei, Priscila Maria. Mas entenda uma coisa, Priscila Maria. Você tem que compreender que não somos mais dois adolescentizinhos namorando no shopping. Somos um casal adulto, entendeu? Cá, entre nós, meio ridícula essa sua mania de se dirigir a mim usando esses nomes fofos, não? Patético. Priscila Maria, você falando comigo desse jeito me faz sentir um pedófilo. Simplesmente constrangedor.
- Credo, Paulo Alberto. Bem que eu tenho notado você um pouco mais frio... Como você mudou, hein? Cadê aquela paixão do início? Onde está aquele homem que me dava bichinhos de pelúcia? Que comprava algodão doce nos nossos passeios no parque?
- Olha Priscila Maria, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não é por que eu não faço mais essas coisas que vou deixar de ter consideração por você.
- Consideração??? Aquele amor virou consideração então? É isso, Paulo Alberto? É isso?
- Priscila Maria, tem uma hora em que todo relacionamento evolui, compreende? Amor não tem nada a ver com isso. Não tem mais cabimento você ficar falando comigo fazendo esses biquinhos. Você já é uma mulher feita, pega mal essas coisas. Mesmo que seja só quando estamos sozinhos. Sei lá, é estranho. Nossa idade mental é outra. Gostaria de ter uma mulher ao meu lado, não uma bebezona.
- Só queria demonstrar meu carinho por você, Paulo Alberto. Só isso. Será que é tão grave isso? Será?
- Não precisa fazer drama, Priscila Maria. Vamos agir feito adultos, ok? Feito adultos que pensam e sabem usar a razão. Por favor. Olha, preciso desligar o celular, que eu preciso atender um cliente aqui, tudo bem? Mais tarde nos falamos. Abraços.
- Tá bom, tá bom. Então, beijos carinhosos e cheios de ternura pra você, Paulinho...
- Ok, ok... Até mais. Tenho que atender um cliente aqui.
Entra ela na sala, os olhos dele brilham, mais ainda quando ela resolve falar:
- Era a sua namoradinha no celular, é?
- É ternurinha, era ela... Ah, não faz esse biquinho pra mim, vai, minha coisinha do coração. Eu já disse, não posso terminar com ela por enquanto, por aquelas razões que eu já te falei... Da mesma forma que você não pode largar o seu maridinhozinho ainda...
- Eu sei, bijuzinho. Mesmo assim, fico tristinha, dodói, viu?
- Oh, meu nenenzinho. Onde é o dodói? Mostla plo seu docinho de côco, mostla.
- Aqui ó.
- Ah, no colaçãozinho? Fica assim, não, xuxuzinho. Vou dar um beijinho nele, tá? Melholou?
- Um tiquinho, momôzinho.
- Nossa, você fica mais ternurinha ainda falando assim, com esse biquinho lindo: “momôzinho”...
- Momôzinho!
- Ah, que glacinha. Fala de novo, momôzinha.
- Mo-mo-zi-nhô!
- Só você mesmo, minha jeripoquinha! Jelipoquinhazinha linda! Cuti cuti!
- Gugu dadá! Gugu dadá!
Escrito por Tuca Hernandes às 11h22
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OS TRÊS FIOS

É curioso como tendemos a ser detalhistas pra alguns aspectos da aparência que quase ninguém chegará a reparar. O exemplo mais clássico disso é nossa relação com os cabelos. Quantas vezes já nos pegamos olhando pro espelho, mexendo em alguns poucos fios de cabelo, como se isso fosse mudar todo o nosso visual? Depois desse tipo de ajuste, ninguém nunca chegou pra mim e disse:
- Olha só, você jogou pro lado esquerdo aqueles três fios de cabelo da sua franja que estavam no meio... Ficou legal!
Mas não tem jeito, mesmo com a razão dizendo que nada vai mudar nesse sentido, a emoção insiste em posar de consultora de beleza, e das mais picaretas, te fazendo convencer que esses pequenos ajustes serão tão eficientes quanto uma cirurgia plástica, instantânea e indolor. Animal às vezes irracional, no fundo você sabe que o sucesso daquele encontro está na dependência do seu penteado, conversa é o de menos. Se algo deu errado, só pode ser culpa daqueles três fios de cabelo, que resolveram te boicotar justo ali, na frente daquela pessoa.
E você chega em casa, amaldiçoando aqueles fios, que enfim se ajeitam, mas aí já é tarde. Enquanto isso, ela, que nem reparou no seu cabelo, reza antes de dormir para que o próximo encontro não seja com um cara como o daquela noite, que tinha babinha branca nos cantos da boca enquanto falava.
Escrito por Tuca Hernandes às 15h52
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Ô MUNDO CRUEL!

- Te prepara rapaz, que o que tenho aqui é coisa fina! Olha só.
- Um DVD? Pornô?
- Isso mesmo, “Elas Pedem, A Gente Põe – Parte 5”. Esse aqui eu já vi cinco vezes, duas delas em slow motion. Muito bom, você tem que ver isso, pelo menos a primeira cena.
- Pô Marcão, você sabe que eu não curto muito esse tipo de filme. Sei lá, é como estar com fome e ficar vendo os outros comendo um pratão de macarronada na sua frente...
- Que coisa, hein? Depois que noivou, deu pra ficar afrescalhado, é? Mas cara, vai por mim, coloca aí. Mulheres lindíssimas! Liberadíssimas! Todas da Tchecoslováquia.
- Ok, tá bom. Eu coloco... Só pra você não encher o saco... Esses filmes são todos a mesma coisa: a mulher tira a roupa, o cara vai lá, faz o serviço, etc...
- Aí, tá começando...
- Ei, um momento! Essa mulher aí de minissaia preta, ao lado da ruiva vestida de babá!
- O que tem ela?
- Ela é a cara da Ana Paula Arósio!
- Não te disse? Só gatinha! Essas tchecoslovacas são demais.
- Não é possível!
- Não é possível o quê?
- Cara, essa mulher só deve estar aí de figurante. Com esse rostinho, como é que pode fazer um filme pornô? Tá doida? Linda desse jeito? Com a cara da Ana Paula Arósio? Olha lá, até o jeitinho delicado...
- Acorda meu amigo, pra fazer um filme desses, o rosto é o que menos importa...
- Caramba! Não é que ela vai tirar a roupa mesmo??? Olha aí! Putz!!! Vai parar por aí, né? Só pelada, nada mais, né?
- Ih, isso é só o começo...
- Não é possível! Ela tá deixando os dois gêmeos chegarem junto dela... Ela vai fazer mesmo!!!
- Espera só até chegar o carteiro... Aí, tocou a campainha da casa dela. É ele...
- O quê, o carteiro é esse negão??? Não acredito! Olha o tamanho da coisa dele!!
- E os dois gêmeos continuam lá... Olha só a flexibilidade dela. Parece uma ginasta!
- Ah não! Pára com isso. Na Ana Paula Arósio não!!! Sai daí, Ana Paula! SAI DAÍ!!! FOGE!!!
- Calma rapaz!!! É só um filme... Não acredito, você tá chorando???
- Pô Marcão... Olha só o que o negão tá fazendo com ela, desse jeito... Não me conformo, não me conformo... E esses dois gêmeos, pô. Deviam tratá-la com mais carinho, olha lá, vão acabar com a coitadinha, tão delicadinha...
- Que nada, olha a cara de satisfação dela...
- Ela é atriz, sabe fingir! Não deviam fazer isso com ela, não deviam...
- Calma... pronto, acabou a cena. Tá vendo? Todos felizes e abraçados. Pode parar de chorar agora... Rapaz, você tá tremendo de nervoso! O que é isso?
- Você ainda pergunta?
- Você queria o quê? Que fizessem apenas papai e mamãe com ela? Com um cara só?
- É claro! E com dublê!!!
- Por quê?
- Ora essa, ela é a cara da Ana Paula Arósio!
- E daí?
- E daí que essa é pra casar, entende? PRA CASAR!
- Ah é? E agora, você casaria com ela, mesmo depois de ter visto isso?
- Não sei... Bem, talvez... Com uma condição, na hora de transar, digo, fazer amor.
- Qual?
- Só papai e mamãe, nada mais!
Escrito por Tuca Hernandes às 00h05
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IMPRESSÕES DE ELEVADOR

Tudo bem que só conhecemos as pessoas convivendo com elas, ao vivo. Vários dias seguidos, pelas manhãs, tardes e noites. De preferência, pelas quatro estações do ano. Dessa forma, do que você lerá adiante, nesse texto, poderá não passar de puro preconceito, baseado em impressões de elevador. Impressões de elevador? Mas que troço seria esse? Sabe aqueles segundos em que convivemos com alguém dentro do elevador? Mente quem diz não observar o outro nessas ocasiões, mesmo de cabeça baixa, ar de indiferente. Nada mais previsível na natureza humana: observou, julgou.
No prédio onde moro, existem duas vizinhas que me despertam sentimentos bem distintos no que diz respeito à simpatia dentro do elevador. O único ponto em comum entre as duas é que elas me cumprimentam antes de apertarem o botão de seus andares. Mas, assim como existe beijo bom e ruim, identifico nelas um cumprimento vivo e outro morto. A primeira, que chamarei de Dona Desânimo, dificilmente esboça um sorriso e, nas raras vezes em que o exibe, esse parece vir acompanhado de cólicas, sempre com aquele ar de quem está prestes a anunciar uma tragédia, um luto sem fim. Teoricamente, ela conquistou tudo que uma tradicional mulher, aos trinta e tantos, possa querer: é casada, tem duas filhinhas adoráveis, mora bem, tem emprego, tem bom carro, e por aí vai. Mas nada disso parece contagiá-la de endorfina, aquela substância que circula em nossa corrente sangüínea quando estamos felizes. Quando ela diz “boa noite”, pela expressão dela, ficaria mais convincente se tirássemos o áudio original e o substituísse por um “ai, meus rins!”.
Na outra ponta, tem uma outra vizinha, a jovem Mulher Simpatia. Com essa, o tom do cumprimento é sempre de alegria, sorriso escancarado, como se a sua presença no elevador fosse a melhor coisa que poderia ter acontecido na vida dela, naquele momento. Na primeira vez em que ela me deu um beijinho de boa noite, fiquei entre o satisfeito e o surpreso, imaginando que talvez ela estivesse dando em cima de mim, tamanha era a simpatia. Mas, com o tempo, vi que isso era padrão, uma vez que ela fazia o mesmo com outras pessoas ali no elevador. Agora que teve a primeira filha então, faz com que, por alguns segundos, adotemos o bebê como sobrinho, tão simpático e bonito como a mãe.
Mas como eu disse, são apenas impressões de elevador. Vai ver que, uma vez que entram no apartamento, a Dona Desânimo se transforme na Mulher Simpatia, e a Mulher Simpatia na Dona Desânimo. Afinal, pra muitas pessoas, a disposição muda conforme o ambiente ou compromisso. Que o digam algumas ex-namoradas minhas: flores do campo em público, flores do pântano na intimidade. Outras, vice-versa. Ou você acha que aqueles atendentes do Mc Donalds são solícitos e atenciosos em casa também, sempre oferecendo um pouco de mais de batata frita pros irmãos? Sei lá.
Escrito por Tuca Hernandes às 09h25
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HEIN???

- Então, é não?
- Sim!
- Sim???
- Sim, não.
- Não é não?
- Não, é sim pro não.
- Ah, então é não pro sim.
- Sim.
- Sim? Nada de não?
- Negativo.
- Ah... então é não!
- Yes!!!
- Sim???
- Não!
- Ah, sim...
- Não!!!
- Não?
- É, não!
- O quê???
- Talvez, ok??? Talvez!
- Ah, sim...
- Ah, não!!!
- Então é sim?
- ...
- Quer saber a minha opinião?
- ...
- Não?
- Não.
- Não o quê?
- ...
- ...
Escrito por Tuca Hernandes às 22h35
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QUESTÃO DE IMAGEM

- Alô?
- Alô, Juju... Ainda lembra de mim?
- Ah, Carlinhos, que pergunta! Claro que sim, né? Afinal, você foi meu namorado por quatro anos...
- Sei lá... Você estava com tanta raiva de mim naquela nossa última conversa, mês retrasado... Eu imaginava que tivesse ainda um certo rancor da sua parte.
- Olha, confesso que eu quis te matar naquela semana em que você me deu o pé na bunda...
- Peraí Juju... não foi bem assim, não foi bem um “pé na bunda”...
- Como não foi, Carlinhos? Do nada, você veio me dispensando. Se isso não for um pé-na-bunda, não sei de mais nada.
- Ok.. Tudo bem. Mas sei que você está bem agora, não?
- Como assim?
- Já está saindo com outra pessoa...
- Ah, sim. O Albertinho... Ele é uma graça!
- Minha nossa, taí uma coisa que eu jamais imaginaria. Você namorando com o Meleca...
- Um momento, Meleca não, Albertinho!
- Pra mim ele será sempre o Meleca, o bobão, o mala da turma.
- Ih... o que foi? Tá com ciúmes de mim agora, Carlinhos?
- Não, não é isso... Mas, caramba Juju, tanto cara aí no mundo e você vai namorar logo o Meleca?
- Albertinho...
- Meleca, Albertinho, o que for... Mas tinha que ser justo ele, logo depois de mim???
- Qual o problema? Depois que você terminou comigo, voltei a ser solteira, meu bem. Logo, eu fico com quem eu bem quiser.
- Qual o problema??? Eu te digo. Vão pensar por aí que o seu padrão é de caras como o Meleca...
- Albertinho!!!
- O que for! Então, como você foi minha última namorada, ao verem você com esse cara, logo vão pensar que estou no padrão dele.
- Que bobagem, hein? Francamente, Carlinhos!
- Você merece coisa melhor, Juju! É o seguinte, lembra do Fred, aquele meu amigo que voltou há pouco tempo do MBA feito na Inglaterra?
- Ah sei, aquele que vivem confundindo com o Reinaldo Gianechinni?
- Esse mesmo. Noite passada ele me fez uma confissão, depois de beber umas e outras comigo. Ele me disse que sempre foi apaixonado por você, Juju!!!
- E daí???
- Como e daí??? O Fred é o sonho de qualquer mulher: bonito, gente boa, inteligente, bem articulado, cheio da grana, vice-presidente de uma multinacional! Pôxa vida, se te virem ao lado de um Fred, sabendo que você me namorou antes, certamente vão dizer: “Ah, o padrão dessa moça é muito bom! Então o Carlinhos, antigo namorado dela, era coisa boa!” Entende o que quero dizer?
- Não, não entendo. Olha, uma coisa que eu gostaria que você entendesse: eu amo o Albertinho! AMO!!!
- Ah, Juju, não faz isso comigo! Por favor! Eu te imploro: o Meleca não!!!
- Albertinho!
- Esse cara é podre. É feio de doer, meio careca, baixinho, barrigudo, tem pêlo na orelha, todo desengonçado, vive fazendo piadinhas sem graças... E é o tipo de chato que estraga qualquer roda de conversa! Um mala que não consegue ficar muito tempo em emprego algum, pois não há patrão que o suporte.
- Pra mim, ele é perfeito. Em tudo. Quer um exemplo? Lembra que concordávamos que o ponto G era uma lenda? Então, com o Albertinho, vi que não era lenda...
- Ah, mentira! Não pode ser!
- Orgasmos múltiplos? Outra coisa que você me convenceu ser história pra boi dormir. O Albertinho me convenceu do contrário...
- Olha, tudo bem, agora sei que não fui o homem da sua vida, ok? Eu, humildemente, aceito isso. Mas pensa na minha imagem, por favor, em respeito aos quatro anos que passamos juntos! Dá uma chance pro Fred, vai!!!
- Meu filho, a mulher que tem um Albertinho jamais o trocará por um Fred, ok? Quer saber? Carlinhos, boa sorte na sua vida, tudo de bom, etc e tal, mas tenho que desligar, tá bom?
- Tá, tá! Vai, faz isso, continua queimando a sua imagem ao lado do Meleca!
- Albertinho!!!
- MELECA!!!!! MELECA!!! MELECA!!!
Escrito por Tuca Hernandes às 00h05
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MERXANDÁIZIN

Dessa vez, vou aproveitar esse espaço pra fazer um convite pros que estiverem em São Paulo. Nessa sexta (14/10), vai acontecer enfim o show da minha banda, SÃO ROCK, onde volto a assumir o posto de vocalista depois de mais de um ano afastado por conta de uma lesão no pescoço. A foto acima data de meu último show, em setembro do ano passado. Então, pra comemorar o milagre da cura, escolhemos como templo o bar Riviera Moema, na Al Jauaperi, 1351, aqui em São Paulo. O horário? Lá pelas 22:00 hs.
Então, sintam-se convidados!
Escrito por Tuca Hernandes às 00h33
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SOBRE AFEIÇÃO
Para se medir o nível de afeição que sentimos por alguém ou algo, um dos testes mais eficientes, ao meu ver, é o da crítica alheia. Ou seja, se ficamos incomodados quando alguém ataca o nosso suposto objeto de afeição, pode crer: nos importamos, e muito, com o alvo do bombardeio. Atingiu ali, estilhaçou por aqui.
Nesse dia das crianças, além do inevitável lado comercial, aproveitei pra me questionar se realmente gosto de meus sobrinhos. Eu quis lembrar de alguma situação que simbolizasse uma empatia maior por eles do que a habitual por qualquer criança. E acabei me recordando de uma ocasião, meses atrás, quando três deles estavam posando juntos pra uma foto, em uma festa do condomínio aqui do meu prédio. Todos ao redor estavam sorrindo pra aquela figura de três pirralhos encostados na parede, algo como a “coisa mais fofa do mundo”, no que eu concordava, é claro. Destoando do restante, havia um grupo de adolescentes, não sintonizados no modo "cuti-cuti" frente as crianças. Um deles, pra fazer graça, sem que grande parte do pessoal percebesse, fez um gesto de como se estivesse com uma metralhadora, atirando em direção aos meus sobrinhos. “Tátátátátátá!!!” Ao ver aquilo, tudo o que eu queria era uma metralhadora de verdade pra descarregar naquele gordinho. Que ele fizesse uma chacina imaginária com quem quer que fosse, menos com meus sobrinhos, ora essa. Neles, estranho algum encosta. Nem de mentirinha.
Não fui tirar satisfação, afinal isso teria sido mais tolo ainda que o gesto do rapaz. Mas o que conta aqui é que me importei. O sangue subiu à cabeça. Se por acaso eu fosse um super-herói, o ponto fraco mais evidente na minha identidade secreta seriam meus sobrinhos, alvo preferido de chantagem por parte de meus inimigos, como o impiedoso Gordinho Metralhador. Mas como sou um cara normal, o mínimo que posso dizer é que não dói nem um pouco agradá-los, como enfrentar filas em lojas cheias de mães estressadas, na intenção de comprar a tal lembrança do dia das crianças, mesmo correndo o risco de vê-los gostarem mais da embalagem do que do brinquedo em si, como já ocorreu algumas vezes.
É, gosto bastante deles sim. Tanto que até hoje faço questão de não cumprimentar o Gordinho Metralhador, ao encontrá-lo no elevador. Coisas da afeição.
Escrito por Tuca Hernandes às 21h23
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FOI SÓ UM CAFEZINHO...

Mentir é feio, abominável. Falar sempre a verdade, seja lá qual for o caso, é eticamente recomendável, talvez o ingrediente principal na receita de uma pessoa nobre. A sinceridade pode causar perplexidade em um primeiro instante, mas quem for de bom senso compreenderá depois o gesto, valorizando a integridade de quem rejeitou a falsidade.
Alguns mentem pra preservar a intimidade. No meu caso, como ainda vivo com meus pais, fato bizarro esse, vez ou outra minha mãe me surpreende perguntando pra onde vou e de onde voltei. Respondo sem problemas, falando a verdade, afinal sou o típico bom filho, que jamais se meteu em encrencas ou em algo que fosse moralmente condenável. Nesse último sábado, ao chegar em casa lá pelas dez da noite, respondi pra ela que fui dar um passeio de moto, aproveitando pra comer um bolo e tomar um cafezinho com uma amiga minha.
Mesmo sabendo que minha mãe odeia minha moto, mais ainda quando estou em cima dela, como se eu estivesse brincando de roleta russa no trânsito, não vi razão alguma pra omitir que eu ficara dando umas voltas com ela por aí, a tarde inteira. Sinceridade acima de tudo. Mas, como não me vejo na obrigação de revelar os detalhes de tudo que faço, resolvi não contar que o tal cafezinho com minha amiga foi em Holambra, à 150 Kms daqui.
O coração da minha mãe agradece.
Escrito por Tuca Hernandes às 22h49
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EUREKA!

Enquanto isso, num boteco qualquer, na Terra do Nunca:
- Rapaz, já tenho a solução pra esse problema das armas.
- Diz aí...
- É o seguinte: o negócio não é referendo coisa alguma, a solução é desarmar sabe quem? Quem?
- Não faço idéia...
- Os BAN-DI-DOS!!! O negócio é desarmar os bandidos!
- Caraca! É mesmo! Que idéia mais original! Você é um verdadeiro gênio! Como as autoridades não pensaram nisso ainda?
- Pois é... Siga o meu raciocínio: se os bandidos não tiverem armas, logo eles não terão mais como botar medo nas vítimas... Sendo assim, de tão frustrados que ficarão, largarão essa vida do crime e irão atrás de emprego!
- Isso mesmo! E muitos vão até abrir seu próprio negócio, honestamente, gerando mais empregos! Que maravilha!
- E mais negócios sendo abertos, com mais empregos, sabe o que isso significaria?
- Sei! O governo arrecadando mais impostos, no que resultará em investimentos maciços na educação, saúde e moradia!
- É claro! Aí, só teremos notícias boas nas manchetes do Jornal Nacional e na capa da Veja!
- Mas vem cá, como faremos pra desarmar os bandidos?
- Ora essa, é simples... Basta fazer uma campanha pelas rádios e TVs, comunicando a todos os bandidos que, a partir de uma determinada data, eles estarão terminantemente proibidos de usarem armas pra praticarem seus crimes...
- Ótima idéia, até já imagino um slogan do tipo “Aí ladrão, trezoitão é coisa de bundão, mermão!”
- Boa! E só nós, cidadãos de bem, poderíamos ter arma de fogo.
- Mas e se houver algum bandido desobedecendo essa lei? Como fica?
- Se... “SE” houver... Ah rapaz, nem queira saber, pois nesse caso a polícia iria agir energicamente no malandro que ousar desrespeitar a nova legislação...
- Isso aí, polícia neles!!!
- A bandidagem não seria maluca de sair armada por aí... Meu chapa, uma vez que proibiu, tá proibido! Armas, só pros cidadãos de bem.
- Como a gente... Mas que não venha engraçadinho algum dar um “Pedala, Robinho!” em mim que iria ter que se entender comigo e minha Magnum calibre 44!
- Ah, é claro, somos cidadãos de bem, mas não temos sangue de barata, né? Mas a partir do momento em que todo cidadão de bem, como a gente, começar a andar armado, quero ver se vai existir engraçadinho macho o suficiente pra dar uma de folgado com a gente por aí...
- É mesmo, além de termos uma sociedade mais justa, até os folgados desapareceriam. Um mundo ideal! Só não seria mais perfeito por causa das drogas...
- Drogas? Ah, esse problema é mais simples ainda de se resolver...
- Ah é? Duvido. Me diz aí como então.
- Ora essa, basta prender todos os traficantes e tratar adequadamente os viciados em clínicas de desintoxicação...
- Putz, é mesmo! Rapaz, seu QI deve ser de um gênio! Um gênio!!!
Escrito por Tuca Hernandes às 22h32
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EI! LEMBRA DE MIM?

Principalmente quando não havia orkut e messenger, a grande maioria das amizades surgiam das coincidências dos espaços físicos. Ou seja, você ficava amigo de Fulano porque ele estudava na mesma escola que você, por exemplo. Uma vez que terminava a coincidência, depois da formatura, quem fosse esperto o suficiente procurava de alguma maneira conservar os bons amigos. Nesse departamento, não fui lá muito esperto durante um belo pedaço de minha vida, uma vez que as grandes amizades que tenho hoje surgiram a partir da época da faculdade, como se antes eu não tivesse conhecido ninguém, no tempo do colégio. O que não é verdade. Quando moleque, meu bizarro mecanismo social me permitia ter amigos, mas não conservá-los. Só faltava vir escrito o seguinte na pele desses: “Prazo de validade: até a formatura”
Noite passada, tendo em mãos um livro que ajudei a escrever lá na sexta série, páginas cada vez mais amareladas, resolvi fazer uma busca pelo orkut, digitando o nome de alguns outros “autores” no campo de pesquisa. Pra minha felicidade, encontrei dois grandes amigos da época. Um respondeu ao meu scrap, o outro, ainda não. Nessa redescoberta, me senti feito um arqueólogo que encontrou traços de uma civilização perdida. Sim, uma pré-história particular, onde eu desenhava, jogava um futebolzinho até que razoável, arrancava gargalhadas ao imitar o Jânio Quadros, e sempre era chamado pelo diminutivo, por ser o baixinho da turma. Desses meus dois amigos, vou chamá-los pra tomar umas cervejinhas, e sugerir na ocasião que puxemos mutuamente as nossas orelhas, por termos perdido o contato tão pateticamente após a formatura da oitava série.
Mas quanto as duas garotas por quem fui apaixonado na pré-adolescência, cada qual em épocas distintas, lá no colégio, nenhum sinal delas. É bem provável que tenham mudado o sobrenome depois de casadas. Quer saber? Talvez seja melhor que continuem assim, fora do meu mundo atual. Que no museu do meu coração permaneçam exatamente daquele jeitinho, encantadoras, sem disputar espaço com as fotos mais recentes delas, que talvez venham a revelar apagadas senhoras de 30 anos, bem longe daquelas esposas que um dia eu vim a idealizar.
Escrito por Tuca Hernandes às 10h50
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